Ex-racista, De Klerk pede perdo pelo apartheid

CELESTINO VIVIAN

Traidor para uns, heri para outros, mas acima de tudo pragmtico. Frederik Willem de Klerk, 58, passar  histria como o poltico que, ao lado de Nelson Mandela, tornou real o sonho de tentar pr fim ao apartheid na frica do Sul.

No por acaso, De Klerk e Mandela, ex-inimigos, dividiram o prmio Nobel da Paz de 1993.

O ex-racista De Klerk libertou o ex-extremista Mandela em 1990, aps 27 anos de priso.

O prmio foi um estmulo para que os dois liderassem o processo de mudanas que culmina nas eleies das quais pela primeira vez participam os negros, que so 76,1% da populao.

"Creio que poderemos abandonar o crculo vicioso da desconfiana, das divises, das tenses e conflitos, partindo para uma frica do Sul totalmente nova", disse De Klerk ao assumir a Presidncia em setembro de 1989.

Descendente de africners (colonizadores de origem holandesa), De Klerk nasceu em Johannesburgo, em 18 de maro de 1936.

Seu pai foi membro do Partido Nacional (PN), fundado em 1948. Foi o PN o principal responsvel pela poltica do apartheid.

Praticante de golfe e tnis, De Klerk nunca escondeu seu passado racista. Em 1956, aps ter ingressado na Faculdade de Direito, tornou-se membro da Juventude Nacionalista, a ala jovem do PN.

Em 1972 foi eleito deputado pelo Partido Nacional. Ocupou diversos ministrios e, como titular da Educao, cargo para o qual foi nomeado em 1984, defendeu a segregao racial nas escolas.

A mudana de De Klerk em relao ao apartheid foi resultado de presses e sanes internacionais.

A partir de 1987, ele vestiu a camisa de liberal, numa atitude pragmtica diante da crise econmica, agravada por sanes impostas pelos EUA e ONU desde 1977 e pela sada de empresas do pas.

Em 1989, De Klerk assume o comando do Partido Nacional no lugar do presidente Piether Botha, afastado por motivo de doena.

Botha renuncia e De Klerk assume interinamente a Presidncia em 15 de agosto de 1989.  confirmado no cargo no ms seguinte, aps eleies.

Dois meses depois, em novembro, De Klerk anuncia o fim da segregao racial nas praias. Mas as principais medidas contra o apartheid viriam em 1990.

Em fevereiro, De Klerk legaliza cerca de 30 grupos polticos, entre eles o Congresso Nacional Africano (CNA), banido na dcada de 60, e o Partido Comunista, ilegal desde 1950. Mandela, lder do CNA,  libertado.

Em outubro cai um pilar do apartheid, a lei que dividia locais pblicos entre brancos e negros.

Em 1991, junho,  abolida a lei que reservava 87% do territrio  minoria branca e que proibia os negros de morar nas cidades. Ainda em junho  extinta a lei que classificava a populao segundo a raa e  decretado o fim oficial do apartheid.

Em maro de 1992, 68,7% dos eleitores brancos aprovam, em plebiscito, a poltica reformista de De Klerk.

Em novembro de 92, o presidente prope um amplo programa de negociaes para a realizao das primeiras eleies multirraciais da frica do Sul.

Em abril do ano passado, num gesto surpreendente, disse adeus a seu passado racista e pediu desculpas pelo apartheid que vigorou de 1948 a 1989.

"No era nossa inteno privar as pessoas de seus direitos e causar misria, mas a segregao e o apartheid levaram exatamente a isso e eu o lamento profundamente", afirmou.
